Cenário de Letalidade Policial em Mato Grosso do Sul
Mato Grosso do Sul registrou a décima maior elevação nacional na taxa de mortes decorrentes de intervenção policial. O índice no estado cresceu 11,1% entre os anos de 2024 e 2025, um aumento consideravelmente superior à variação nacional, que foi de 5,4%. Em termos absolutos, as ocorrências passaram de 67 para 75 no período citado. O estado figura entre as unidades da federação com maior crescimento, posicionando-se após Rondônia, Maranhão, Alagoas, Rio Grande do Norte, Sergipe, Pernambuco, Santa Catarina, Paraná e Rio de Janeiro.
Tendência Nacional e Regional
O levantamento sobre segurança pública aponta que, enquanto o Brasil tem observado uma tendência de redução nas Mortes Violentas Intencionais (MVI), a letalidade policial seguiu um caminho oposto, atingindo o maior patamar registrado desde 2016. No país, as mortes decorrentes de intervenções das polícias Civil e Militar somaram 6.602 em 2025, representando um aumento de 5,4% em relação ao ano anterior. Essas ocorrências passaram a corresponder a 16,2% de todas as mortes violentas intencionais no território nacional, a maior participação desde 2014. Entre 2016 e 2025, o crescimento acumulado desse tipo de evento alcançou 55,7%.
Em Mato Grosso do Sul, os números parciais de 2026 indicam uma aceleração dessa tendência. Em pouco mais de seis meses, o estado já contabilizava 85 mortes em ações das forças de segurança, superando as 75 registradas durante todo o ano de 2025, o que representa um acréscimo de 13,3%. Essa conjuntura sugere um cenário de intensificação da violência, marcado pela atuação do crime organizado e pela resposta estatal.
As mortes decorrentes de intervenção policial em Mato Grosso do Sul também se destacam como as maiores registradas na região Centro-Oeste. Em contrapartida, os demais estados da região apresentaram queda no indicador: Mato Grosso (-34,6%), Distrito Federal (-7,1%) e Goiás (-3,9%).
Contexto e Análise do Fenômeno
A análise do cenário revela um paradoxo na segurança pública brasileira: a queda nos índices de homicídios, latrocínios e lesões corporais seguidas de morte não foi acompanhada por uma diminuição no uso da força letal pelas polícias. Um dos episódios que marcou a segurança pública em 2025 foi a Operação Contenção, no Rio de Janeiro, que resultou em 122 mortes civis. Esta operação, por si só, representou uma parcela significativa da letalidade policial no estado carioca e no país.
Perfil das Vítimas e Mecanismos de Controle
O perfil das vítimas de intervenções policiais permanece estável, com homens representando 97% dos casos, sendo a faixa etária de 20 a 29 anos a mais afetada. Há também uma notável desigualdade racial, com a taxa de mortes de pessoas negras sendo 3,5 vezes maior do que a de pessoas brancas. Discussões sobre mecanismos de controle da atividade policial apontam a fragilidade dos instrumentos de fiscalização e a infiltração do crime organizado em estruturas estatais como fatores contribuintes para o aumento da letalidade.
A redução da letalidade policial, conforme apontado, dependeria mais do aprimoramento do emprego da força do que da sua ampliação coercitiva. Medidas como o fortalecimento de controles internos e externos, maior transparência, uso de câmeras corporais, investimentos em inteligência policial e integração entre órgãos de investigação são indicadas como caminhos para mitigar o problema.

