Destaques:
- A venda do Consórcio Guaicurus para um grupo com sede em Goiás foi confirmada nesta terça-feira (21).
- A transação ocorre após 14 anos de operação marcados por reclamações sobre o estado de conservação da frota e descumprimento de contrato.
- A Prefeitura de Campo Grande ainda precisa validar a transição, mas a prefeita manifestou otimismo com a mudança.
O Consórcio Guaicurus, responsável pela operação do transporte coletivo em Campo Grande, foi vendido para o grupo HP Mobilidade, sediado em Goiás. A confirmação da transação ocorreu na tarde desta terça-feira (21) pela prefeita da Capital, Adriane Lopes (PP).
A concessão, que vigorava há 14 anos, foi marcada por diversas ocorrências de problemas com a frota, incluindo ônibus com defeito e falta de manutenção adequada, gerando insatisfação entre os usuários. Relatórios e investigações, como a da CPI (Comissão Parlamentar de Inquérito) da Câmara dos Vereadores, apontaram o descumprimento reiterado do contrato de concessão, que incluía a obrigação de renovação da frota e manutenção dos veículos.
O relatório da CPI detalhou que o consórcio, formado em 2012, descumpria cláusulas contratuais importantes, como a não renovação dos ônibus e atrasos constantes em viagens. Essas falhas ocorriam mesmo com o recebimento de valores significativos pela prestação do serviço e benefícios fiscais.
A prefeita Adriane Lopes indicou que a transição operacional ainda requer validação por parte do executivo municipal. No entanto, a chefe do executivo de Campo Grande demonstrou uma visão favorável em relação à nova gestão, antecipando que a proposta da HP Mobilidade será cuidadosamente avaliada. Rumores sobre a possibilidade de venda já circulavam nos bastidores do consórcio desde abril.
O estado crítico dos veículos é apontado como uma das principais consequências do período de operação do Consórcio Guaicurus. A frota apresentava veículos significativamente acima da idade média prevista em contrato, que estipula um limite de dez anos de fabricação para ônibus em circulação, mantendo uma média geral de cinco anos. Registros indicam a presença de ônibus com mais de 16 anos em circulação, contribuindo para transtornos diários aos passageiros.
No início deste ano, a Prefeitura determinou a substituição de pelo menos 197 ônibus. Apesar de receber isenções fiscais e subsídios, o consórcio não apresentava novos veículos há mais de um ano. Além disso, mais de 15 mil ocorrências por descumprimento de horário e omissão de viagens foram registradas, conforme dados da Agetran (Agência de Transporte e Trânsito de Campo Grande). As inspeções de segurança veicular também apresentaram um índice crescente de reprovação, passando de 5,4% em 2020 para 18,6% em 2023.
Apesar de alegações de crise financeira, perícias técnicas indicam que entre 2013 e 2024, as empresas arrecadaram cerca de R$ 1,8 bilhão. Mesmo durante a pandemia, o consórcio teria registrado um lucro líquido superior a R$ 27 milhões, o que contrasta com a justificativa para a não renovação da frota.
Investigações anteriores, incluindo a delação de um advogado em 2023, apontaram suspeitas de fraude no direcionamento da licitação que resultou no contrato milionário do transporte coletivo em 2012. O esquema envolveria a combinação de editais para beneficiar empresas específicas.
Uma primeira tentativa de CPI na Câmara Municipal em 2017 não obteve sucesso. A situação se agravou com a pandemia. Em 2022, um acordo com a prefeitura para financiar a concessionária envolveu repasses de R$ 70 milhões. A CPI finalizada em setembro de 2025 registrou quase 300 denúncias de usuários, reforçando a necessidade de intervenção.

