- Metade dos feminicídios em Mato Grosso do Sul ocorre dentro da casa da vítima, frequentemente à noite, com o companheiro ou ex-companheiro como autor.
- Entre janeiro e maio deste ano, os casos de feminicídio, consumados e tentados, registraram aumento de 23% em comparação com o mesmo período do ano anterior.
- Mais de 80% das vítimas assassinadas não possuíam medida protetiva de urgência em vigor, evidenciando um desafio crítico na rede de proteção.
O questionamento frequente sobre o que uma mulher estaria fazendo na rua ‘a essa hora’ é desmistificado por dados recentes sobre feminicídios em Mato Grosso do Sul. Um mapeamento da violência contra a mulher revela uma realidade alarmante: o maior risco para muitas mulheres reside justamente no ambiente que deveria ser o mais seguro: o próprio lar.
A Inversão da Segurança Doméstica: Onde o Perigo Habita
As análises apontam uma combinação preocupante de fatores. Metade dos assassinatos de mulheres registrados no estado ocorreu dentro da casa onde a vítima vivia com o companheiro, e durante o período noturno. Outros 33,3% dos crimes aconteceram à tarde e 16,7% pela manhã. A residência compartilhada pelo casal foi o local de 50% dos assassinatos, enquanto vias públicas foram cenário de 16,7% dos casos.
O perfil dos autores também corrobora a ligação intrínseca entre feminicídio e violência doméstica. Os números indicam que mais de 80% dos assassinatos foram cometidos por companheiros ou ex-companheiros, um padrão que reflete o chamado ‘ciclo de controle e posse’. Este cenário desafia a percepção de segurança e expõe a vulnerabilidade das mulheres em seus relacionamentos afetivos mais íntimos.
A Escalada da Violência: Números Alarmantes em Mato Grosso do Sul
Entre janeiro e maio deste ano, os casos de feminicídio, tanto consumados quanto tentados, apresentaram um aumento de 23% em Mato Grosso do Sul, em comparação com o mesmo período do ano anterior. Neste período, 12 mulheres foram vítimas fatais, com idades entre 18 e 74 anos. Os crimes se espalharam por diversas regiões do estado, incluindo Bela Vista, Corumbá, Coxim, Três Lagoas, Ponta Porã, Anastácio, Paranhos, Selvíria, Campo Grande, Eldorado, Mundo Novo e Dourados. Esses dados ressaltam a amplitude e a gravidade da violência de gênero que permeia o cotidiano sul-mato-grossense.
As Ferramentas da Tragédia e a Falha da Proteção
A arma branca continua sendo o instrumento mais empregado nos feminicídios, utilizada em 47% dos registros analisados. Facas e outros objetos cortantes foram empregados em 28 casos. Na sequência, aparecem atropelamento, armas de fogo e asfixia ou estrangulamento como métodos utilizados. Além do tipo de arma, um dado preocupante é que mais de 80% das vítimas de feminicídio não possuíam medida protetiva de urgência em vigor no momento do assassinato. Essa estatística sublinha um dos principais desafios enfrentados pela rede de proteção: a dificuldade de fazer com que mulheres em situação de violência busquem ajuda e acionem os mecanismos legais antes que a agressão atinja um desfecho fatal. A ausência da proteção formal levanta questões sobre o acesso à informação, o medo de retaliação e a eficácia das campanhas de conscientização.
Nomes e Rostos por Trás da Estatística: A Dureza da Realidade
Por trás dos números frios, existem histórias de vidas ceifadas onde a segurança deveria prevalecer. Liliane de Souza Bonfim Duarte, enfermeira de 52 anos, foi atacada dentro de sua residência em Ponta Porã, vindo a óbito dias após ser agredida. Vera Lúcia da Silva, de 41 anos, foi assassinada no quintal de sua casa em Eldorado, na presença de sua filha de 9 anos. O crime ganhou contornos ainda mais chocantes com a posterior violação do corpo de Vera no cemitério. Em Três Lagoas, Beatriz Benevides da Silva, de 18 anos, foi morta em seu apartamento, espaço que simbolizava um novo começo e independência. Esses casos evidenciam a brutalidade da violência e o impacto devastador que transcende a própria vítima, atingindo famílias e a comunidade.
O Desafio da Prevenção e o Papel da Sociedade
A recorrência de casos onde as medidas protetivas não estão em vigor demonstra a complexidade da violência doméstica e a necessidade de um esforço contínuo em informação e conscientização. Campanhas que alertam para sinais como controle excessivo, ameaças, humilhações e isolamento social – comportamentos frequentemente mascarados como demonstrações de afeto – são cruciais. A sociedade, em seu conjunto, precisa estar mais atenta e preparada para identificar e intervir em relacionamentos abusivos desde seus estágios iniciais, para que as mulheres possam romper os ciclos de violência e encontrar o apoio necessário antes que a situação se agrave irreversivelmente.
Em situações de emergência, mulheres podem acionar a Polícia Militar pelo telefone 190 ou a Guarda Civil Metropolitana pelo 153. Também é possível buscar orientação na Ouvidoria por meio do canal 127, ou procurar a Promotoria de Justiça mais próxima.

