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Casca de Bocaiúva: Pesquisa da UFMS Transforma Resíduo em Cosmético Inovador Premiado Nacionalmente

A bocaiúva, fruto emblemático do Cerrado e do Pantanal de Mato Grosso do Sul, popularmente conhecida como “chiclete pantaneiro”, está no centro de uma pesquisa inovadora que poderá expandir seu valor para além da alimentação. Uma formulação cosmética desenvolvida por pesquisadores da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS) utiliza a casca do fruto, usualmente descartada, como matéria-prima principal.

Tecnologia Acrodermo e Reconhecimento Nacional

A tecnologia, denominada Acrodermo, alcançou o primeiro lugar no Desafio de Inovação Pantanal Tech 2026. O projeto visa agregar valor a um resíduo agroindustrial, transformando-o em um produto com maior potencial econômico para a cadeia produtiva da bocaiúva. Desenvolvido no Laboratório de Purificação de Proteínas e suas Funções Biológicas (LPPFB), da Faculdade de Ciências Farmacêuticas, Alimentos e Nutrição (Facfan), o trabalho é fruto da colaboração entre a professora Maria Lígia Rodrigues Macedo, o farmacêutico e pesquisador Lucas Rannier Melo de Andrade, e o biólogo e doutorando Antolim Penha Martinez Junior. A proposta central é o aproveitamento integral da casca da bocaiúva para a produção de dois ingredientes cosméticos: um extrato com propriedades antioxidantes e partículas esfoliantes naturais.

A conquista no desafio de inovação foi recebida com satisfação pela equipe. A pesquisa envolveu meses de testes, ajustes e repetições de experimentos, e o reconhecimento foi considerado gratificante. A Agência de Inovação da UFMS também celebrou o resultado, destacando o avanço da Universidade na integração entre ciência, tecnologia, inovação e empreendedorismo. Cinco dos seis projetos premiados na competição foram desenvolvidos pela instituição, o que demonstra o fortalecimento do ambiente de inovação na universidade.

Da Casca ao Ingrediente Cosmético: Um Novo Ciclo

A motivação para a pesquisa surgiu da observação de que, enquanto a polpa e a amêndoa da bocaiúva já eram amplamente estudadas e utilizadas, a casca permanecia como um resíduo sem aproveitamento significativo. A equipe buscou novas aplicações para este material, com o objetivo de transformar o que seria descartado em um ativo cosmético de maior valor agregado. O projeto também fortaleceu o vínculo com produtores e cooperativas locais, aprofundando a compreensão do potencial econômico da casca e incorporando aspectos de sustentabilidade e valorização da cadeia produtiva regional.

O nome Acrodermo é uma junção de “Acro”, referente à espécie científica da bocaiúva (Acrocomia aculeata), e “dermo”, alusivo à derme, a camada da pele para a qual a formulação foi desenvolvida. Essa denominação reflete a união da biodiversidade regional com a aplicação biotecnológica. A pesquisa ressalta o valor da biodiversidade local e a capacidade de espécies nativas oferecerem matérias-primas diversificadas.

Um dos aspectos distintivos da pesquisa é a obtenção de dois componentes cosméticos a partir de um único resíduo. A casca da bocaiúva rende um extrato antioxidante, que auxilia na neutralização do estresse oxidativo associado ao envelhecimento precoce e à perda de firmeza da pele. O material sólido remanescente após a extração é então transformado em partículas esfoliantes naturais, destinadas à remoção de células mortas.

Testes laboratoriais já indicaram boa atividade antioxidante, potencial anti-inflamatório e segurança nas concentrações testadas em modelos celulares. Os pesquisadores desenvolveram protótipos que combinam o extrato antioxidante e as partículas esfoliantes na mesma formulação, demonstrando o potencial da bocaiúva como ingrediente natural para cosméticos em termos de aparência, textura e estabilidade inicial.

O conceito do Acrodermo alinha-se aos princípios da economia circular, buscando maximizar o uso dos recursos e minimizar o desperdício. O duplo aproveitamento da mesma matéria-prima reforça essa abordagem. Além dos benefícios ambientais, a pesquisa abre novas perspectivas econômicas. A substituição de componentes sintéticos por ingredientes vegetais biodegradáveis atende a uma demanda crescente da indústria cosmética. A casca, antes sem valor comercial, passa a ser um novo insumo para produtores, cooperativas e pequenas empresas, gerando renda a partir de um resíduo.

Próximos Passos e Potencial de Mercado

Atualmente, o projeto Acrodermo encontra-se em fase de validação laboratorial e aperfeiçoamento de protótipos. As etapas de extração, processamento da casca, desenvolvimento das partículas esfoliantes e avaliação das atividades biológicas foram concluídas. Os próximos passos incluem a otimização da formulação, estudos de estabilidade, segurança, eficácia e análises microbiológicas. Posteriormente, a meta é preparar a tecnologia para produção em escala, abrangendo a padronização da matéria-prima, estimativa de custos e adequação às exigências regulatórias.

A equipe de pesquisa também está em processo de pedido de patente da tecnologia. A crescente demanda por ingredientes naturais no mercado cosmético fortalece as expectativas de transferência da inovação para empresas do setor. Existe a possibilidade de licenciamento para empresas já estabelecidas ou a criação de uma startup incubada na UFMS, focada em ingredientes naturais derivados da biodiversidade brasileira.

A conquista no Pantanal Tech foi vista como um marco que transcende o reconhecimento científico, proporcionando uma compreensão mais aprofundada do potencial comercial da tecnologia e alinhando a pesquisa às demandas do mercado. O processo estimulou a reflexão sobre modelos de negócio, público-alvo, custos de produção e estratégias de mercado.

Em suma, a pesquisa evidencia o potencial da biodiversidade de Mato Grosso do Sul como fonte de soluções inovadoras e reforça o papel da universidade na conversão de conhecimento científico em tecnologia com impacto econômico, social e sustentável para o estado.

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