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Pantanal: Fogo Controlado, Desafios Latentes – Uma Análise da Prevenção de Incêndios no Coração do Mato Grosso do Sul

  • Operação de Manejo Integrado do Fogo (MIF) abrangeu mais de mil hectares no Parque Estadual do Pantanal do Rio Negro, incluindo fazendas vizinhas.
  • A estratégia busca reduzir biomassa e material combustível, utilizando queimas prescritas e aproveitando incêndios controladamente.
  • Ações integradas entre órgãos estaduais, pesquisadores e produtores rurais são fundamentais para a prevenção e resiliência do bioma.

O coração de Mato Grosso do Sul, o Pantanal, é um bioma de beleza ímpar, mas também de uma complexidade ambiental que exige constante atenção e manejo. Diante do histórico de incêndios de grandes proporções que têm assolado a região, uma abordagem proativa e estrategicamente planejada emerge como ferramenta fundamental: o Manejo Integrado do Fogo (MIF). As recentes ações coordenadas por instituições estaduais demonstram uma tentativa de reequilibrar a relação do bioma com o fogo, transformando uma ameaça em uma ferramenta de prevenção e resiliência.

A Complexa Dança com o Fogo: Estratégias de Manejo Integrado

As autoridades ambientais e as forças de segurança realizaram uma série de operações de Manejo Integrado do Fogo no Parque Estadual do Pantanal do Rio Negro. A iniciativa visou, principalmente, a prevenção de incêndios florestais de grandes dimensões, adotando uma metodologia que busca antecipar e mitigar os riscos.

As operações incluíram duas etapas de queima prescrita. Em um dos momentos, equipes aproveitaram um incêndio em andamento na região para, de forma controlada, potencializar a queima em uma área previamente delimitada para manejo. Somadas, as áreas submetidas a essa intervenção estratégica superaram mil hectares dentro do parque e em propriedades adjacentes.

A essência dessa estratégia reside na redução da biomassa acumulada nas unidades de conservação. Ao diminuir a quantidade de material combustível disponível, o risco de grandes incêndios durante o período crítico de estiagem é atenuado. O Parque Estadual do Pantanal do Rio Negro, com seus mais de 76 mil hectares, possui um Plano de Manejo Integrado do Fogo, e as ações preventivas são implementadas desde 2025. No ano de 2025, operações semelhantes alcançaram cerca de mil hectares nas regiões norte e sul da unidade, criando barreiras naturais e reduzindo o risco.

Uma das primeiras ações de queima prescrita em 2026 ocorreu após o registro de um incêndio no parque. O fogo foi monitorado e utilizado pelas equipes para a eliminação controlada de material combustível. A operação contou com o apoio de uma torre de observação e de um grupamento de operações aéreas, que realizou sobrevoos constantes.

A condução dos trabalhos é estratégica, observando as condições climáticas e a disponibilidade de material combustível para garantir uma propagação controlada. As equipes atuaram para evitar que as chamas ultrapassassem os limites do parque, beneficiando-se, em alguns pontos, de ambientes alagados que funcionaram como barreiras naturais.

Entre os dias 11 e 15 de maio, uma nova ação de queima prescrita abrangeu uma área da Fazenda Santa Maria, na região leste do parque. Cerca de 600 hectares foram manejados, em uma área considerada estratégica para a prevenção de incêndios futuros devido à proximidade com locais de grande acúmulo de biomassa.

O planejamento dessas intervenções é desenvolvido a partir de uma análise aprofundada do comportamento climático e da necessidade de ampliar as áreas de proteção. Após um incêndio na região oeste, planejou-se uma nova queima do centro para o oeste do parque, criando um ‘cinturão preventivo’ para diminuir o risco de propagação em larga escala.

Para a segurança da operação, as equipes aproveitaram uma janela meteorológica favorável, com a frente fria que atingiu Mato Grosso do Sul no início de maio. A redução das temperaturas, o aumento da umidade e as chuvas na região contribuíram diretamente para o controle das chamas.

Desafios e Reflexões no Cenário Pantaneiro

O Pantanal é um bioma que, em sua essência, convive com o fogo. No entanto, a intensidade e a frequência dos incêndios nos últimos anos têm ultrapassado os padrões naturais, impondo a necessidade de técnicas adequadas para reduzir os riscos e proteger áreas sensíveis. O manejo integrado permite que o fogo seja utilizado de forma controlada, planejada e segura, evitando incêndios de grandes proporções e salvaguardando a biodiversidade, os recursos hídricos e as comunidades locais.

As técnicas de queima prescrita buscam uma baixa intensidade do fogo, permitindo que animais silvestres consigam fugir e evitando a destruição total da vegetação. As plantas são submetidas a uma limpeza superficial, diferente dos incêndios severos que comprometem drasticamente a fauna e a flora.

Para 2026, a preocupação se intensifica com a previsão de influência do fenômeno El Niño, que favorece períodos mais secos e temperaturas elevadas, criando um cenário propício para incêndios de alta intensidade. No Parque Estadual do Pantanal do Rio Negro, as queimas prescritas deste ano foram realizadas em áreas que não haviam passado por manejo no ano anterior, respeitando o Plano de Manejo do Fogo do Parque, que recomenda um intervalo mínimo de dois anos entre as intervenções na mesma área.

Diante de um bioma que historicamente convive com o fogo, a sociedade sul-mato-grossense se depara com a complexa questão: até que ponto a intervenção humana, por mais planejada, pode ou deve moldar a resiliência natural do Pantanal? E quais as responsabilidades compartilhadas de cada cidadão e setor para além da ação emergencial, visando um futuro onde a coexistência com o fogo seja sustentável e menos destrutiva?

A Força da Colaboração para a Resiliência do Bioma

A execução dessas ações demonstra a importância da integração entre órgãos públicos, equipes técnicas e proprietários rurais. As operações foram realizadas de forma integrada entre o Instituto de Meio Ambiente de Mato Grosso do Sul, o Corpo de Bombeiros Militar e produtores rurais da região. Além do apoio operacional de equipes aéreas, os produtores colaboraram com a abertura de aceiros e a implantação de linhas de defesa nas áreas adjacentes ao parque.

O manejo integrado do fogo tem se mostrado uma ferramenta fundamental para a preservação do Pantanal e para a redução dos impactos ambientais causados por incêndios extremos. Essa atuação conjunta sublinha que a prevenção é o caminho mais eficiente. O planejamento técnico, aliado ao monitoramento climático e ao apoio operacional das equipes em campo, tem permitido resultados positivos na proteção do Pantanal sul-mato-mato-grossense.

A operação mobilizou cerca de dez bombeiros, sete servidores do Instituto de Meio Ambiente de Mato Grosso do Sul, dois pesquisadores da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul e quatro colaboradores de uma propriedade vizinha ao parque, incluindo operadores de trator. Os trabalhos duraram cinco dias, com três dedicados à aplicação do fogo controlado, um à preparação das áreas e outro para ações de rescaldo e monitoramento.

A sinergia entre diferentes atores – o poder público com sua expertise e capacidade de coordenação, a academia com sua pesquisa e o setor rural com seu conhecimento do território e maquinário – é um pilar crucial para o sucesso dessas iniciativas. Fica o questionamento para a sociedade sul-mato-grossense: como podemos fortalecer e replicar esse modelo de colaboração, garantindo que a proteção do Pantanal seja uma responsabilidade verdadeiramente coletiva e contínua, transcendendo os períodos de crise?

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