Um Gigante de Visitantes em Corpo de Vila
Bonito, um dos cartões-postais de Mato Grosso do Sul, enfrenta um desafio colossal impulsionado por seu próprio sucesso: recebe anualmente um fluxo de mais de 400 mil visitantes. Este número impressionante equivale a aproximadamente 16 vezes a população permanente estimada para o município, que beira os 25 mil habitantes para 2025. O diagnóstico detalhado para a revisão do Plano Diretor de Bonito, realizado pela UFRJ, joga luz sobre a intensa pressão exercida por essa massa flutuante sobre a infraestrutura urbana, um reflexo direto da principal vocação econômica da cidade.
Turismo: A Espinha Dorsal Econômica e o Eixo dos Problemas
O turismo não apenas sustenta a economia de Bonito, respondendo por cerca de 25% do fluxo de visitantes do estado, mas também lidera a geração de empregos formais. Com aproximadamente sete mil leitos e mais de 40 atrativos turísticos, a cidade se consolidou como um polo de atração. Contudo, essa pujança econômica vem acompanhada de desafios que impactam diretamente a qualidade de vida dos residentes e a sustentabilidade do próprio turismo. A discrepância entre o número de moradores permanentes e o contingente temporário que circula pela cidade, especialmente em períodos de alta temporada como janeiro, julho, dezembro e feriados prolongados, sobrecarrega serviços essenciais como abastecimento de água, tratamento de esgoto, energia e transporte.
Gargalos Urbanos: O Transporte no Epicentro da Crise
Um dos pontos mais frágeis identificados é o sistema de transporte. Dados revelam que a maioria dos moradores utiliza automóveis, bicicletas ou motocicletas para se deslocar para o trabalho, com uma participação mínima do transporte público. Essa realidade é agravada pela ausência de um transporte coletivo urbano regular, forçando trabalhadores do setor turístico a dependerem de meios particulares para se locomoverem entre suas residências, o centro da cidade e os locais de trabalho. Para os visitantes, a situação não é diferente, com turistas sem carro particular recorrendo a táxis, aplicativos, locadoras ou transfers, aumentando a frota circulante e a concentração de veículos em áreas centrais durante os picos de movimento.
A situação viária é ainda mais complexa pela coexistência do fluxo turístico com o transporte de cargas. As rodovias MS-178 e MS-382 servem tanto como acessos turísticos quanto como rotas para caminhões e transporte de gado. A ausência de uma rota periférica eficaz para desviar o tráfego pesado das áreas urbanas faz com que veículos de grande porte dividam espaço nas ruas com moradores e turistas, intensificando congestionamentos. Estima-se que automóveis ocupem entre 70% e 80% do espaço nas vias, uma proporção que contribui para os engarrafamentos e demanda uma readequação do espaço público, priorizando calçadas, ciclovias e arborização.
A infraestrutura cicloviária, embora utilizada por uma parcela significativa da população, apresenta deficiências, com trechos concentrados em eixos centrais e falta de conexão adequada com bairros residenciais, além de compartilhar corredores com veículos pesados em rodovias estaduais. O contraste entre o centro bem estruturado e a periferia com ruas sem pavimentação também aponta para um crescimento urbano que, em alguns vetores, antecedeu a chegada da infraestrutura necessária.
Saneamento Básico e a Universalização Pendente
A pressão turística também se reflete nos índices de saneamento. Embora o abastecimento de água alcance quase a totalidade da população urbana (99%), o índice cai para 81,60% quando se considera todo o território municipal, com uma perda alarmante de 35,66% da água no sistema de distribuição. No que tange ao esgoto, a rede cobre 94,86% da população urbana, mas a cobertura rural é inexistente, resultando em um índice geral de 78,19%. A falta de rede de esgoto em áreas rurais e dispersas é apontada como um obstáculo significativo para a universalização do serviço, impactando diretamente a qualidade ambiental e a saúde pública.
Um Plano Diretor para o Futuro: Integração e Sustentabilidade
Diante deste cenário, a revisão do Plano Diretor de Bonito para o período de 2026 a 2036 se torna um instrumento crucial. O diagnóstico elaborado pela UFRJ sugere a integração de políticas de turismo, mobilidade urbana, saneamento básico e expansão territorial para garantir que a infraestrutura local seja capaz de atender tanto a população residente quanto o fluxo turístico. A proposta visa redefinir as regras de planejamento territorial, buscando um modelo de desenvolvimento que concilie o crescimento econômico com a sustentabilidade e a qualidade de vida, assegurando que o encanto de Bonito possa ser preservado para as futuras gerações.

