Uma Espera que Redefiniu a Vida
A rotina de Anderson Ribeiro dos Santos, investigador da Polícia Civil em Fátima do Sul, foi marcada por mais de 16 anos de incerteza e luta pela vida. Diagnosticado em março de 2009 com nefropatia por IgA, a chamada doença de Berger, Anderson iniciou em abril do mesmo ano um percurso de 16 anos e 8 meses em hemodiálise. Este tratamento contínuo, essencial para a filtragem do sangue, tornou-se um pilar de sua existência, mas também um lembrete constante da fragilidade da saúde e da longa espera por um novo órgão.
A jornada o levou por diversos centros de tratamento em Mato Grosso do Sul, São Paulo e Paraná. Cada convocação para um potencial transplante trazia uma mistura de esperança e apreensão, muitas vezes culminando em frustração devido à incompatibilidade. “A gente vive esperando o telefone tocar. Pode ser a qualquer hora, de madrugada, durante o almoço. Isso mexe com o psicológico, com o sono, com tudo”, relata. Mesmo diante das adversidades clínicas, Anderson manteve sua atuação como investigador, função que exerce desde 2006, encontrando no apoio de colegas e da instituição um alicerce fundamental para seguir adiante.
A 13ª Convocação e a Virada
A esperança se materializou em outubro do ano passado, após um período de acompanhamento no Hospital do Rocio, em Campo Largo-PR. Foi na 13ª convocação, depois de 12 tentativas frustradas, que Anderson recebeu a notícia que mudaria seu destino. “Quando deu certo, foi como ganhar uma nova vida. Foram muitos anos tentando, vendo outras pessoas conseguirem e eu tendo que recomeçar. É uma sensação que não dá para descrever”, expressa. A convocação, que ocorreu na madrugada, exigiu uma mobilização imediata para o deslocamento até o hospital.
A Agilidade Logística que Salva Vidas
A rapidez no deslocamento foi um fator crucial para a concretização do transplante. Ao longo de sua trajetória, Anderson contou com diferentes modalidades de transporte, incluindo apoio aéreo viabilizado pelo Governo do Estado em momentos anteriores. A necessidade de deslocamento imediato em casos de transplante ressalta a importância de uma estrutura logística preparada para agir em tempo hábil. “Quando o chamado acontece, não tem como esperar. É tudo muito rápido. Sem esse tipo de apoio, muita gente não consegue chegar a tempo”, explica.
O piloto da Casa Militar, delegado da Polícia Civil Enilton Zalla, que atualmente atua na aviação do Estado, participou diretamente do transporte de Anderson. Ele relata que a missão, mesmo enfrentando condições meteorológicas desafiadoras durante a madrugada, foi realizada com sucesso, garantindo que o investigador chegasse a tempo para o procedimento. “Para nós foi uma felicidade muito grande. A gente participa de muitas histórias como essa, e poder ver quando dá certo, principalmente com alguém que a gente tem proximidade, é um privilégio enorme”, afirma Zalla. A operação envolve o trabalho integrado da Secretaria de Estado de Saúde (SES), Casa Militar e Coordenadoria de Transporte Aéreo (CTA), com missões que incluem tanto o transporte de pacientes quanto a captação de órgãos, com foco em reduzir o tempo entre a retirada e o transplante, maximizando as chances de sucesso.
Entre o Medo e a Gratidão
Ao chegar ao hospital, Anderson sentiu uma mistura de ansiedade e receio diante da magnitude da cirurgia. O acolhimento da equipe médica e a preparação para o procedimento foram fundamentais. O transplante foi realizado em 14 de outubro, um dia após a convocação. Hoje, Anderson expressa profunda gratidão por todos que o auxiliaram em sua jornada, incluindo sua família, sua esposa Simeide, seus filhos Ana Lívia e José Pedro, sua mãe Luzinete e seu pai Adão Ribeiro. A história de Anderson reflete o avanço dos programas de transplante em Mato Grosso do Sul, evidenciando como a integração entre saúde e logística estatal é essencial para salvar vidas.
A Central Estadual de Transplantes (CET) registra que, desde 2023, foram realizadas 39 missões aéreas para captação e transporte de órgãos, com 19 apenas no último ano. A coordenadora da CET, Claire Miozzo, destaca que a redução do tempo entre captação e transplante “aumenta significativamente as chances de sucesso”. O cirurgião Gustavo Rapassi reforça que o transporte aéreo é decisivo, especialmente para pacientes em estado crítico, permitindo que órgãos sejam utilizados a tempo e salvando vidas na fila de espera.

