O Desejo de Voltar para Casa
Rufina Brites Cardoso, conhecida carinhosamente como ‘Gaúcha’, sentia que seu tempo estava acabando. Após meses internada em Londrina (PR) para tratar uma fratura e com a suspeita de um câncer, ela fez um pedido único à filha: “Minha filha, eu não sei se vou aguentar. Se eu tiver que morrer, eu quero morrer onde nasci”. Essa frase transformou os planos da família.
Mesmo sob forte medicação para dor, Dona Rufina fez a viagem de volta para Campo Grande há pouco mais de uma semana. Percorreu cerca de 1.200 quilômetros, não em busca de um novo tratamento, mas para reencontrar a cidade onde construiu sua história.
Reencontros e Legado em Campo Grande
Em seus últimos dias, Dona Rufina visitou amigos, familiares e pessoas queridas. Ela faleceu na madrugada desta quarta-feira (8), poucos dias antes de completar 73 anos na próxima sexta-feira (10).
“Ela amava essa cidade. Dentro do hospital ela já tinha quase morrido. Eu coloquei meu joelho no chão, orei e fomos trilhando esse caminho. Ela conseguiu rever muita gente antes de partir”, relata a filha, Renata Maria Cardoso de Mello.
‘Gaúcha’: A Dona do Bar e a Matriarca
Para muitos em Campo Grande, especialmente nas regiões da Vila Nhanhá e Piratininga, Rufina era ‘Gaúcha’, a proprietária de um bar que funcionou por anos na Rua Manoel da Costa Lima, um ponto de encontro para vizinhos, músicos e amigos.
Antes de comandar o bar, ela trabalhou como açougueira, sendo lembrada como uma das pioneiras na profissão em Mato Grosso do Sul. A vida no bar foi marcada pela criação dos filhos e pelo acolhimento de quem passava por ali.
Uma Família de 12 Filhos
O maior legado de Dona Rufina, contudo, transcende o balcão do bar. Ela já criava cinco filhos quando recebeu a notícia de que seis filhas de seu marido, de um casamento anterior, viviam em situação de extrema dificuldade em São Paulo. Sem hesitar, a família partiu para buscá-las.
“Ela falou: ‘Agora a gente vai buscar essas meninas e criar’.” As seis filhas passaram a viver com a família em Campo Grande. Com o nascimento de Renata, a caçula, Dona Rufina se tornou mãe e provedora de 12 filhos.
“Eu tenho dois filhos e já acho difícil. Minha mãe criou doze. Ela abriu mão da própria vida para cuidar da família. Era uma mulher muito resiliente”, afirma Renata, que se formou em Fisioterapia inspirada pela mãe.
Despedida e Reconhecimento
O carinho deixado por Dona Rufina ficou evidente após sua morte. Amigos de diversas cidades, incluindo do Sul do país, confirmaram presença para a despedida em Campo Grande.
O velório ocorreu nesta quinta-feira (9), a partir das 7h, na Capela Pax Mundial, na Avenida Ernesto Geisel. O sepultamento foi marcado para as 14h20, no Cemitério Campo Santo.

