O 31 de maio, Dia Mundial Sem Tabaco, transcende a mera data comemorativa para se tornar um espelho das inquietações sobre o futuro da saúde pública. Em Mato Grosso do Sul, a reflexão se aprofunda diante do avanço de dispositivos eletrônicos para fumar, os vapes, com um foco preocupante na população mais jovem. O tema global de 2026, “Desmascarando o apelo – combatendo a dependência”, ressoa no estado, expondo as complexas táticas da indústria do tabaco que seduzem e viciam precocemente. A questão transcende o indivíduo; ela interpela a coletividade: estamos protegendo nossas futuras gerações?
Destaques:
- Crescimento alarmante do uso de vapes entre adolescentes em MS, com dados indicando quase 30% de experimentação.
- Estratégias da indústria do tabaco são desmascaradas, visando atrair jovens com sabores e marketing sedutor.
- Mato Grosso do Sul amplia ações de prevenção, tratamento e fiscalização, com cobertura em mais de 90% dos municípios.
A Escalada dos Vapes: Juventude em Risco e Táticas de Sedução
A Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE) de 2024 revelou um dado alarmante: em apenas cinco anos, o percentual de adolescentes (13 a 17 anos) que experimentaram cigarros eletrônicos saltou de 16,8% para quase 30%. Isso significa que, em nível nacional, praticamente três em cada dez estudantes nessa faixa etária já tiveram contato com o dispositivo. O sistema Vigitel Brasil 2006–2024, por sua vez, complementa essa análise, evidenciando uma persistência da dependência de nicotina, com uma notável mudança no padrão de consumo. O avanço no controle do tabagismo convencional cede espaço a novos desafios, exigindo respostas ainda mais incisivas da saúde pública.
A Secretaria de Estado de Saúde (SES), através de sua Gerência de Prevenção e Controle do Tabagismo, observa com preocupação a forma como a indústria utiliza sabores doces, refrescantes e sofisticadas estratégias de marketing para tornar esses produtos irresistíveis, especialmente para crianças e adolescentes. O objetivo primordial do trabalho no estado é ampliar o acesso à informação, prevenir a experimentação e fortalecer o cuidado para quem anseia abandonar a dependência. Mas a reflexão vai além: qual o custo social dessa sedução? Que lacunas se abrem na proteção da infância e adolescência quando produtos com apelo tão forte circulam, por vezes, nas franjas da ilegalidade ou da falta de percepção de risco?
MS em Ação: Tratamento e Conscientização para um Futuro Livre da Nicotina
Mato Grosso do Sul tem reagido a essa ameaça silenciosa. A SES tem incentivado os municípios a fortalecerem o Programa de Tratamento para Cessação do Tabagismo, que já alcança mais de 90% das cidades sul-mato-grossenses. Os resultados são palpáveis: o monitoramento estadual aponta um crescimento significativo nos atendimentos, passando de 2.787 em 2024 para 4.163 em 2025. Esse avanço conta com o apoio do Ministério da Saúde na capacitação de profissionais, visando expandir o número de equipes qualificadas para o atendimento.
Além do suporte direto aos fumantes, o Estado tem focado em ações educativas nas escolas estaduais e particulares, capacitações para profissionais da Atenção Primária e Especializada e atividades específicas para a prevenção do uso de cigarros eletrônicos entre jovens. A batalha é pedagógica, clínica e, acima de tudo, social. Mas a sociedade tem absorvido essa mensagem com a urgência necessária? As famílias estão conscientes dos riscos que rondam seus lares?
Fiscalização e o Chamado à Responsabilidade Coletiva
A luta contra o tabagismo eletrônico em Mato Grosso do Sul se intensifica através de parcerias estratégicas. A Vigilância Sanitária estadual e municipal une forças em atividades conjuntas, especialmente entre o Dia Mundial Sem Tabaco (31 de maio) e o Dia Nacional de Combate ao Fumo (29 de agosto). O foco recai sobre o cumprimento das normas da Anvisa relativas ao comércio de produtos fumígenos e dispositivos eletrônicos para fumar. A atuação integrada busca combater a comercialização irregular desses produtos, um desafio que exige vigilância constante e punição exemplar.
A Vigilância Sanitária mantém um trabalho contínuo, em parceria com os municípios, para garantir a obediência ao marco regulatório. A intensificação de ações estratégicas e intersetoriais de orientação, fiscalização e conscientização visa fortalecer o controle desses produtos no estado. A SES também ampliou parcerias com instituições de ensino superior, como a participação na Jornada Universitária Odontológica (Pré-JUNO) da Uniderp, com palestras sobre os impactos do tabagismo.
Este cenário, porém, levanta questionamentos fundamentais para a sociedade sul-mato-grossense: A fiscalização, por mais intensa que seja, será suficiente para frear a disseminação de produtos que chegam por canais diversos e, por vezes, clandestinos? Qual a responsabilidade de cada cidadão na denúncia e no combate a essa chaga? Como podemos, enquanto comunidade, blindar nossos jovens de um vício que se traveste de modernidade e status, mas que, no fundo, é apenas mais uma armadilha à saúde e ao bem-estar? A prevenção é um compromisso coletivo que exige mais do que ações governamentais; exige a participação ativa e consciente de todos.


