O Adeus a Lydia Möcklinghoff em Campo Grande
Em uma sala com cerca de 50 poltronas vermelhas, quatro ocupadas por pessoas que conheceram e amavam Lydia Theresia Möcklinghoff, a pesquisadora alemã que perdeu a vida em um acidente aéreo no dia 3 de julho. A despedida, contudo, não foi solitária. Enquanto amigos acompanhavam a cerimônia no Crematório de Campo Grande, a família da pesquisadora realizava uma oração simultânea a 9 mil quilômetros de distância, na Alemanha.
No caixão, uma fotografia exibia o rosto alegre da mulher de 45 anos que dedicou parte de sua vida ao Pantanal. Cada participante recebeu uma rosa branca e, um a um, depositou a flor sobre a urna. Um flautista iniciou uma melodia, pétalas de flores caíram suavemente pelo ambiente, e, lentamente, o caixão seguiu para a cremação. O ritual ocorreu na tarde de sexta-feira (17), duas semanas após a morte de Lydia na queda do avião que decolou do Aeroporto Santa Maria, na área rural de Campo Grande. Além dos quatro conhecidos, estavam presentes o advogado que representa a família e funcionários do crematório.
Homenagens e Conexões Profundas com o Pantanal
Entre os presentes, Manoela Bernardi, 43 anos, amiga de Lydia há mais de duas décadas e que se considerava irmã da pesquisadora, leu uma homenagem preparada pela mãe da alemã. “Lydia era sempre leve e divertida, extremamente apaixonada pelo Pantanal, pelo Brasil e pelos animais. Tinha um jeito carinhoso e alegre de ver e lidar com todas as situações, até nas mais difíceis”, narrava parte do texto.
Manoela também spokeu em nome dos amigos e da comunidade pantaneira, desejando que Lydia encontrasse paz e continuasse a espalhar a alegria que a caracterizava em vida. A amizade entre elas iniciou quando Manoela trabalhava como guia no Pantanal e Lydia realizava pesquisas com tamanduás na Fazenda Barranco Alto, em Aquidauana. A convivência anual, por vezes por meses seguidos, solidificou a relação profissional em uma profunda amizade. “Ela era fantástica. Uma pessoa alegre, carinhosa e muito boa de estar ao lado. Era muito bom conviver com ela. Por isso, toda a comunidade do Pantanal sentiu muito essa perda”, destacou.
Lydia passava, em média, três meses por ano na região, tendo chegado ao Brasil sem conhecer o país. Aprendeu português e desenvolveu uma conexão intensa com a fauna e com os habitantes locais. O idioma, embora falado com um “português meio enrolado”, como descreveu a amiga, era fonte de conversas divertidas. Sua colaboração com emissoras e produtoras estrangeiras para a gravação de documentários no Pantanal a tornou uma figura conhecida, não apenas como pesquisadora, mas como alguém que compreendia profundamente o território e suas transformações.
Legado na Ciência e na Memória
O fotógrafo de natureza André Bittar, que conheceu Lydia em 2021 durante um trabalho de campo, também participou da despedida. Ele descreveu a aproximação como imediata e difícil de explicar, mesmo com a barreira linguística. “A nossa aproximação foi algo surreal. Apesar da barreira da língua, a gente sempre teve conversas muito fortes”, relatou.
André relembrou uma frase atribuída a Guimarães Rosa sobre a alegria em momentos de distração, e sentiu que Lydia personificava isso. “Ela me fazia sentir exatamente isso. Estava sempre alegre, sorridente e de bem com a vida”, afirmou. Para o fotógrafo, que está no início de sua carreira, o trabalho de Lydia representa uma grande inspiração e um legado para a ciência brasileira e para outros profissionais da área.
Um Desejo Atendido à Distância
Impossibilitada de viajar ao Brasil, a família de Lydia permaneceu reunida em oração na Alemanha durante o ato de cremação. O advogado gravou a cerimônia para enviar as imagens aos parentes. As cinzas serão levadas ao país de origem de Lydia e depositadas em um campo-santo escolhido pela família, atendendo a um desejo dela em vida. O processo de cremação e a emissão do registro de óbito, sem a presença pessoal de um familiar devido ao acidente aéreo, necessitaram de autorização judicial, que foi concedida aos representantes da família.

