- A diferença de apenas R$ 0,26 na cotação do dólar pode determinar a lucratividade da soja.
- Análise utilizou Maracaju como referência para simular o planejamento da safra 2026/2027 em Mato Grosso do Sul.
- Cenários com dólar a R$ 5,00 e R$ 5,26 revelam impacto direto na cobertura de custos e nas margens de lucro dos produtores.
Uma diferença de apenas R$ 0,26 na cotação do dólar pode ser suficiente para que uma lavoura de soja deixe de operar abaixo do custo total e passe a remunerar integralmente a atividade. Análise do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea) indica essa realidade, utilizando Maracaju como referência para Mato Grosso do Sul em uma simulação sobre o planejamento da safra 2026/2027.
Maracaju foi escolhido como referência para o estado entre as principais regiões produtoras de soja. Na safra 2025/2026, o município destacou-se como o segundo maior produtor estadual, com 1,287 milhão de toneladas colhidas. O levantamento analisa os reflexos da alta dos insumos e das oscilações cambiais sobre a rentabilidade da soja.
Para projetar os resultados, foram construídos dois cenários. No primeiro, adotou-se uma taxa de câmbio de R$ 5,00 por dólar, próxima da média observada em abril. No segundo, utilizou-se R$ 5,26, uma projeção para 2027. Em ambos os casos, mantiveram-se o mesmo preço da soja na Bolsa de Chicago, o prêmio de exportação e os demais parâmetros considerados. Os resultados, embora específicos de Maracaju, exemplificam a influência cambial sobre a rentabilidade da cultura em Mato Grosso do Sul.
Cenários de Produtividade e Custos
No cenário com o dólar a R$ 5,00, o produtor de Maracaju precisaria colher 46,1 sacas por hectare para cobrir o Custo Operacional Efetivo (COE), que engloba despesas como sementes, fertilizantes, defensivos, combustível e mão de obra. Para quitar o Custo Total (CT), que inclui também itens como depreciação e remuneração da terra e do capital investido, seriam necessárias 66,1 sacas por hectare.
A produtividade média considerada, calculada com base nas últimas cinco safras, é de 64,6 sacas por hectare. Com esse rendimento, o produtor consegue cobrir os custos operacionais, mas fica aquém do volume necessário para custear integralmente a atividade.
Quando o câmbio se eleva para R$ 5,26, o cenário se inverte. A produtividade necessária para cobrir o COE cai para 43,5 sacas por hectare, e a exigida para o CT recua para 62,4 sacas. Mantendo a média de 64,6 sacas, o produtor passa a superar ambos os patamares, conseguindo remunerar todos os custos considerados na simulação.
Análise das Margens Brutas
O levantamento também aponta impacto significativo sobre a margem bruta. No cenário de dólar a R$ 5,00, produtores com terra própria teriam uma redução de 26,6% na margem em relação à safra anterior, equivalente a R$ 1.168 por hectare. Para quem trabalha em áreas arrendadas, a projeção é de margem negativa de R$ 213,30 por hectare.
Com o dólar a R$ 5,26, a situação melhora. A margem bruta do produtor com terra própria permanece positiva em R$ 1.527,60 por hectare, com redução de apenas 4% em comparação à temporada anterior. Nas propriedades arrendadas, a margem retorna ao campo positivo, porém em nível bastante apertado, de R$ 146,30 por hectare.
Os números demonstram o peso do câmbio sobre o resultado da atividade. Mantidas as demais premissas da simulação, uma valorização de R$ 0,26 na moeda norte-americana permite que a produtividade média considerada para Maracaju deixe de ser insuficiente para cobrir o custo total e passe a superar esse patamar.
Alertas para o Planejamento Agrícola
O primeiro cenário aponta para uma preocupação, especialmente porque uma eventual quebra de produtividade, sem compensação por preços ou valorização cambial, pode levar o produtor a registrar uma das menores margens desde a safra 2008/2009.
Além do câmbio, a análise destaca que conflitos internacionais continuam restringindo a oferta mundial de gás natural e enxofre, matérias-primas importantes para a fabricação de fertilizantes, mantendo a pressão sobre os custos de produção. O cenário atual indica a possibilidade de prolongamento da alta dos insumos agrícolas. Além disso, a transição energética e o avanço das políticas de descarbonização tendem a aumentar a disputa por matérias-primas utilizadas pela indústria química, elevando os custos dos fertilizantes e pressionando a produção de alimentos no longo prazo.

