Destaques:
- Acidentes com antas saltaram de 5 para 58 no primeiro trimestre, um aumento superior a 1.000%.
- Essas colisões são as mais graves, resultando em danos materiais severos e 51 óbitos humanos nos últimos 13 anos.
- Degradação ambiental e fragmentação de habitats forçam animais a cruzarem rodovias, aumentando os riscos de forma crítica.
As estradas de Mato Grosso do Sul viraram um perigo crescente para a fauna silvestre e para as pessoas. Colisões veiculares com animais não apenas vitimam a vida selvagem, mas também custam vidas humanas. Nos últimos 13 anos, 51 pessoas morreram em acidentes envolvendo antas nas rodovias sul-mato-grossenses.
O cenário é alarmante: a incidência geral de colisões com animais nas estradas do estado cresceu 69% no primeiro trimestre deste ano, comparado a 2025. O salto é ainda mais chocante para as antas: os registros dispararam de cinco para 58 nos três primeiros meses de 2026, um aumento superior a 1.000%.
Antas ocupam a nona posição entre as espécies com maior número de ocorrências, mas seus acidentes são os mais graves. Sendo o maior mamífero terrestre da América do Sul, com até 300 kg, o impacto resulta em danos materiais severos, perda total de veículos, ferimentos e, tragicamente, óbitos humanos.
Em agosto, um grave acidente na BR-267, entre Rio Brilhante e Maracaju, exemplificou essa tragédia. Uma adolescente de 13 anos e um homem de 38 anos morreram após atingir uma anta na pista. O motorista perdeu o controle, invadiu a contramão e colidiu de frente com um caminhão carregado com etanol. Ambos os veículos pegaram fogo.
Pontos Mais Vulneráveis
No Mato Grosso do Sul, o tatu-peba lidera o ranking de animais vítimas de colisões rodoviárias, com 1,8 mil registros nos últimos 13 anos. Aves e cachorro-do-mato vêm na sequência, com 1,4 mil ocorrências cada. Tatu-galinha e jacaré-do-pantanal ultrapassam 700 casos, enquanto tamanduá-bandeira, capivara e tamanduá-mirim somam mais de 500 registros cada. As antas, com 333, e seriemas, com quase 300, também estão entre as espécies mais afetadas.
Entre os trechos rodoviários mais críticos do estado, a BR-262 acumula 8,1 mil colisões. As rodovias BR-267 e MS-040 também são pontos de atenção, superando 2 mil ocorrências cada. Esses locais são considerados pontos críticos, com rica biodiversidade e espécies em trânsito, que correm sério risco de desaparecimento devido aos acidentes.
Ação Humana e Soluções
A principal causa do problema é a ação humana, com a antropização dos habitats naturais. Um longo histórico de degradação ambiental no Cerrado, Pantanal e Mata Atlântica — biomas que cobrem o estado — levou à transição da pecuária para a agricultura intensiva, expansão da silvicultura e incêndios florestais. Isso reduziu a vegetação nativa a pequenos fragmentos isolados.
Sem grandes extensões contínuas de habitat, a fauna não encontra áreas adequadas para se fixar. Os animais circulam por paisagens alteradas e degradadas, cruzando rodovias e permanecendo constantemente expostos e vulneráveis pela falta de habitat.
A prevenção de acidentes já conta com base científica e soluções consolidadas. Mapeamento de trechos críticos, cercamentos e passagens de fauna são medidas adaptáveis às características de cada local. Métodos padronizáveis e aplicáveis em diferentes rodovias permitem definir as ações mais adequadas a partir de uma breve avaliação técnica da área.
A implementação de cercas direcionadoras, aliada a passagens inferiores de fauna (túneis sob a pista), pode reduzir os acidentes rodoviários em até 80%. Todos os dados e o conhecimento técnico sobre medidas de mitigação para as rodovias com maior risco de colisões com antas já estão disponíveis, identificando os pontos críticos. As informações estão prontas para serem aplicadas e salvarem vidas, tanto de animais quanto de pessoas.

