- Bonito CineSur apresenta vasta programação com clássico vencedor do Oscar e pré-estreia nacional.
- Documentários abordam temas cruciais como povos indígenas, memória e meio ambiente, com foco no contexto regional de MS.
- Atores como Reynaldo Gianecchini, Valentina Herszage e Paulo Betti confirmam presença, enriquecendo o diálogo sobre cinema.
Entre 24 de julho e 1º de agosto, Bonito, no Mato Grosso do Sul, se transforma no palco do Bonito Cinesur – Festival de Cinema Sul-americano. O evento transcende a mera exibição de filmes, propondo um mergulho em narrativas que espelham realidades históricas, sociais e ambientais, com um olhar atento às complexidades regionais e continentais.
A Tela Como Espelho: Temas e Filmes em Foco
A programação especial do festival se inicia em 25 de julho, às 17h, no Auditório Kadiwéu, com a exibição de “A História Oficial”. Este clássico argentino, lançado em 1985, foi o primeiro filme latino-americano a receber o Oscar de Melhor Filme Internacional. Sua trama, que investiga a origem de uma filha adotiva durante os últimos anos da ditadura militar argentina, confronta os crimes do regime. A reflexão que emerge é pertinente: como as cicatrizes de regimes autoritários ainda ecoam nas sociedades sul-americanas, inclusive no Brasil e em Mato Grosso do Sul, onde as memórias de repressão e a luta por direitos ainda são vivas?
No mesmo dia, às 20h, o público terá a pré-estreia nacional de “Honestino”, um longa brasileiro dirigido por Aurélio Michiles, cuja primeira exibição pública ocorre no festival.
A memória e a cultura dos povos originários ganham destaque no dia 26 de julho, às 15h, no Auditório Kadiwéu, com a Sessão Memória Bonito CineSur. Será exibido ‘Aldeia de Nalike’, um documentário raro produzido em 1936 pelos antropólogos Claude Lévi-Strauss e Dina Lévi-Strauss. A obra registra o cotidiano do povo Kadiwéu em Porto Murtinho, Mato Grosso do Sul, revelando rituais, trabalhos artesanais, pinturas corporais e costumes que foram preservados por quase nove décadas. Este resgate histórico provoca uma indagação crucial: como o cinema pode servir como guardião de uma cultura que resiste ao tempo e às transformações, e qual o papel de Mato Grosso do Sul na preservação de seu patrimônio indígena?
A temática ambiental e indígena se aprofunda no dia 28 de julho, às 18h30, no Auditório Terena, com a exibição de “Minha Terra Estrangeira”, documentário lançado em 2025. Dirigido pelo Coletivo Lakapoy, Louise Botkay e João Moreira Salles, o filme acompanha o líder indígena Almir Suruí e sua filha, a ativista Txai Suruí, refletindo sobre a preservação da Amazônia, a representação política e o futuro dos povos originários. Esta obra convida a sociedade sul-mato-grossense a refletir sobre sua própria relação com a natureza e com as comunidades indígenas, considerando a rica biodiversidade do estado e os desafios enfrentados por esses povos.
Em 31 de julho, às 18h30, o Auditório Terena recebe “Martírio”, documentário de Vincent Carelli, que retrata a luta dos Guarani Kaiowá em Mato Grosso do Sul, diante dos conflitos por terra e da violência no campo. Este filme, de grande impacto, coloca em pauta uma das questões mais sensíveis e urgentes da região: o conflito agrário e a resistência dos povos indígenas. Qual o papel do cinema em dar voz e visibilidade a essas lutas, e como a sociedade local pode se engajar de forma mais ativa na busca por justiça e coexistência?
O último dia do festival, 1º de agosto, valoriza produções brasileiras ligadas ao Estado. Às 15h, “Do Sul, A Vingança”, dirigido por Fábio Flecha, mistura ação e comédia ao explorar a fronteira entre Mato Grosso do Sul, Paraguai e Bolívia, região marcada pelo crime organizado. Em seguida, às 17h, o documentário “Jackson – Na Batida do Pandeiro”, de Marcus Vilar e Cacá Teixeira, revisita a trajetória de Jackson do Pandeiro, um dos maiores nomes da música brasileira.
Diálogos e Presenças: Artistas e a Reflexão Regional
Além da programação cinematográfica, o Bonito Cinesur contará com a presença de artistas reconhecidos do cinema e da televisão brasileira. Reynaldo Gianecchini, ator com vasta carreira em novelas, séries e filmes, amplia sua atuação no cinema nacional e estará presente. Valentina Herszage, representando a nova geração de atores, integrou o elenco de “Ainda Estou Aqui”, premiado em 2025, e participa de outras produções de destaque. Paulo Betti, com uma carreira de mais de quatro décadas, é um ator que consolidou sua relevância no teatro, cinema e televisão. A presença desses nomes fomenta o diálogo e a troca de experiências, enriquecendo o ambiente cultural de Bonito e permitindo que o público local interaja com personalidades que moldam o cenário artístico nacional.
O festival, que em edições anteriores exibiu dezenas de filmes de diversos países e atraiu um público considerável, se estabelece como um ponto de encontro para o cinema sul-americano. Para a edição de 2026, a iniciativa busca ampliar esse diálogo, consolidando o cinema como uma ferramenta de reflexão sobre o meio ambiente, a cultura, a memória e a identidade. Em uma cidade mundialmente reconhecida por sua natureza exuberante, o Bonito Cinesur reafirma que as telas também podem ser um portal para a compreensão da paisagem social e cultural que se estende para além do cenário natural.

