Destaques:
- A regulamentação do uso do celular nas escolas abriu caminho para a implementação de novas tecnologias educacionais.
- Lousas interativas, kits de robótica e plataformas digitais estão transformando a rotina de ensino e aprendizagem na rede estadual.
- Investimentos significativos em infraestrutura tecnológica visam democratizar o acesso à educação digital e fortalecer o papel da escola.
Em Mato Grosso do Sul, a tecnologia nas escolas estaduais tem sido reconfigurada para um propósito estritamente pedagógico, apesar da regulamentação que orienta o recolhimento de telefones celulares durante as aulas. Essa mudança reorganiza a forma como os recursos digitais são utilizados no ambiente escolar, transformando a rotina de professores e estudantes da Rede Estadual de Ensino.
A tecnologia, que não se ausentou das salas de aula, manifesta-se agora em lousas interativas, plataformas digitais, laboratórios de informática modernizados e robôs montados pelos próprios estudantes. Essa nova fase na educação pública estadual é resultado de uma reorganização pedagógica, investimentos em infraestrutura e a ampliação do acesso a ferramentas tecnológicas dentro das próprias unidades de ensino.
Ao longo do primeiro ano da nova regra de uso do celular, as escolas da Rede Estadual receberam aportes financeiros superiores a R$ 100 milhões destinados à modernização da infraestrutura tecnológica. Esses recursos foram empregados na aquisição de equipamentos, ampliação de laboratórios, renovação do parque tecnológico e implantação de plataformas digitais voltadas especificamente para o processo de ensino e aprendizagem. Com isso, o aparelho particular deixou de ser o centro da experiência em sala de aula, enquanto a tecnologia ganhou maior presença e um propósito educacional mais definido.
Novas Ferramentas e o Engajamento em Sala de Aula
A vivência de estudantes como Emily de Oliveira, da Escola Estadual Maria Constância de Barros Machado, em Campo Grande, ilustra essa transição. Enquanto o aparelho particular permanece guardado, o ambiente escolar incorpora recursos como lousas interativas de 75 polegadas. Essas ferramentas permitem a exibição dinâmica de mapas, vídeos e gráficos, resultando em aulas mais visuais, participativas e com maior engajamento dos alunos. A percepção geral é de que as aulas se tornaram mais interessantes e dinâmicas, superando, em alguns casos, as metodologias de instituições privadas.
Um dos pilares desse novo ambiente é a plataforma de protagonismo digital, disponibilizada gratuitamente aos estudantes da Rede Estadual de Ensino. Esse espaço reúne recursos digitais de aprendizagem alinhados ao currículo e oferece aos professores materiais confiáveis para enriquecer as aulas, ampliando as possibilidades de ensino sem a dependência do celular individual de cada aluno. Para docentes como Luzimar Cristiane, professora de inglês, a ferramenta qualifica o uso da tecnologia e contribui para reduzir desigualdades de acesso, garantindo que a educação digital seja uma responsabilidade da escola, não do aparelho particular do estudante.
Com os novos recursos, o papel do professor é fortalecido. O conteúdo pode ser apresentado de diversas formas, combinando texto, imagem, vídeo, mapas, gráficos, exercícios interativos e atividades práticas. A tecnologia passa a ser utilizada para ampliar a atenção, estimular a participação e aproximar o estudante do conteúdo, em um ambiente mais estruturado do que soluções improvisadas ou equipamentos limitados.
Robótica Educacional e o Desenvolvimento de Habilidades
Essa transformação não se restringe às salas com lousas digitais. Em diversos municípios, a Educação Digital tem proporcionado aos estudantes da Rede Estadual experiências práticas antes distantes da realidade da escola pública. Em Dourados, na Escola Estadual Floriano Viegas Machado, a montagem de robôs por alunos como Sidney Matheus Ferraz Sanchez, do 9º ano do Ensino Fundamental, demonstra como o conteúdo aprendido em sala pode ganhar forma, movimento e função. O processo envolve peças de encaixe, sensores, motores, baterias e comandos de programação, culminando na criação de robôs que se movimentam conforme a lógica programada.
A experiência evidencia como a robótica educacional tem transformado a relação dos alunos com disciplinas tradicionais. A matemática, por exemplo, deixa de ser vista apenas no quadro ou em exercícios, passando a estar presente em circuitos, medidas, testes, sensores e na lógica de programação, tornando o aprendizado mais concreto e participativo. Desde 2022, kits de robótica e ferramentas de montagem e fabricação são incorporados às escolas estaduais como parte das ações de educação digital. A proposta é estimular o raciocínio lógico, a criatividade, a colaboração, a resolução de problemas e o contato com áreas estratégicas para o futuro, como tecnologia, engenharia, programação e inovação.
Em Aquidauana, a chegada da robótica também alterou a rotina dos estudantes da Escola Estadual Coronel José Alves Ribeiro. A expansão dos laboratórios e oficinas na Rede Estadual permitiu que a robótica chegasse à unidade em abril e, em menos de dois meses, já resultou na inscrição de estudantes do 5º ano na Olimpíada Brasileira de Robótica (OBR 2026), um feito considerado significativo para a comunidade escolar. Para alunos como Pietro Miguel da Rocha Ferreira, do 5º ano do Ensino Fundamental, o contato com a robótica abriu novas possibilidades de aprendizado, desmistificando a ideia de que esse tipo de conhecimento pertence apenas a estudantes mais velhos ou a ambientes universitários.
O ponto comum entre essas diversas experiências é a presença da tecnologia com uma finalidade pedagógica clara. O objetivo primordial não é apenas modernizar a escola com novos equipamentos, mas garantir que esses recursos contribuam efetivamente para melhorar a aprendizagem, ampliar o interesse dos estudantes e apoiar o trabalho dos professores. A tecnologia deixa de ser uma distração individual e passa a ser uma ferramenta coletiva, orientada e integrada ao cotidiano escolar. Dessa forma, o ambiente educacional se aproxima do mundo em que os estudantes vivem, porém com mais organização, segurança e intencionalidade pedagógica. A educação digital é construída como uma política pública, com investimento, estrutura e acompanhamento contínuo, preparando os estudantes para um futuro cada vez mais digital.

