- O Governo de Mato Grosso do Sul concedeu isenção de ICMS para a doação de mais de 201 mil unidades de repelentes a Dourados.
- A medida visa apoiar o município, que decretou situação de emergência em saúde pública devido ao avanço dos casos de chikungunya.
- A iniciativa, embora emergencial, levanta questionamentos sobre a eficácia de ações pontuais frente à necessidade de estratégias preventivas e estruturais duradouras.
Uma decisão governamental de Mato Grosso do Sul, formalizada por decreto, isentou o Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS) sobre a doação de mais de 201 mil unidades de repelentes. O destino é o município de Dourados, que enfrenta uma grave situação de emergência em saúde pública causada pelo avanço da chikungunya. A medida busca facilitar a chegada desses insumos de proteção à população local.
A Medida de Urgência e o Cenário Tributário
O Decreto nº 16.767, assinado pelas autoridades estaduais, estabelece que a isenção tributária se aplica à operação de doação realizada pela Eurofarma Laboratórios Ltda. à Cruz Vermelha Brasileira, filial Mato Grosso do Sul. O objetivo é claro: apoiar as ações de proteção em uma das regiões mais castigadas pela doença no estado. Ao todo, são 201.260 unidades entre repelentes e protetores solares com ação repelente, em versões adulto e infantil, com validade da isenção até 31 de dezembro de 2026 e limitada às quantidades e produtos específicos.
Na prática, o Estado renuncia à cobrança do ICMS incidente sobre a diferença entre as alíquotas interna e interestadual nesta operação específica. Tal mecanismo fiscal, com caráter excepcional e temporário, visa reduzir o custo tributário da doação, permitindo que os produtos cheguem com maior celeridade e volume ao seu destino. É uma intervenção da política tributária como ferramenta emergencial de saúde pública, amparada por convênio nacional.
Dourados em Alerta: A Realidade da Chikungunya
A decisão do governo estadual ocorre em um momento crítico. Dourados decretou situação de emergência em saúde pública em março, um reconhecimento que posteriormente obteve chancela federal. A chikungunya, transmitida pelo mosquito *Aedes aegypti* – vetor também da dengue e zika – tem provocado febre alta, dores articulares intensas e, em casos mais severos, complicações que impactam profundamente a qualidade de vida dos cidadãos.
Este cenário em Dourados não é um ponto isolado na paisagem de Mato Grosso do Sul. A recorrência de surtos de arboviroses em diversas cidades do estado tem sido um desafio persistente para a saúde pública. A mobilização de autoridades e a chegada de insumos como repelentes são cruciais, mas a emergência em Dourados é um sintoma de uma questão mais ampla que exige um olhar para além da reação imediata.
Reflexões para Mato Grosso do Sul: Entre a Reação e a Prevenção
A concessão de isenção de ICMS para a doação de repelentes, embora uma resposta legítima a uma crise, nos convida a uma reflexão mais profunda. Será que tais medidas, pontuais e emergenciais, são suficientes para quebrar o ciclo vicioso de surtos de doenças transmitidas pelo *Aedes aegypti*? O que essa situação revela sobre a eficácia das estratégias preventivas e de saneamento básico em Mato Grosso do Sul? E como a sociedade local se posiciona nesse debate?
É fundamental questionar: a ausência de imposto sobre repelentes, por mais bem-vinda que seja em um momento de aflição, não desvia o foco da necessidade de investimentos contínuos e estruturais em vigilância epidemiológica, controle de vetores, educação sanitária e, crucialmente, saneamento ambiental? Ações como esta são um paliativo necessário, mas a pergunta central permanece: o que está sendo feito para evitar que Dourados, e outras cidades sul-mato-grossenses, se encontrem repetidamente em situações de emergência sanitária? A doação e a isenção fiscal aliviam a dor imediata, mas a cura definitiva para o problema do *Aedes aegypti* exige um compromisso que transcende a resposta a crises, mergulhando nas causas e promovendo uma cultura de prevenção e responsabilidade compartilhada entre poder público e cidadãos.


