InícioPoliciaRede Nacional Utilizava Transmissões ao Vivo para Promover Violência como Entretenimento Coletivo

Rede Nacional Utilizava Transmissões ao Vivo para Promover Violência como Entretenimento Coletivo

Morte Transformada em Evento Online

A morte de uma adolescente de 13 anos em Mato Grosso do Sul foi acompanhada em tempo real por dezenas de pessoas, que coagiam a vítima durante uma transmissão ao vivo. Ao final da sessão, em vez de manifestações de choque ou pedidos de socorro, os participantes iniciaram discussões sobre a realização de uma nova transmissão, chegando a realizar uma enquete para definir a data de um próximo “evento” para o dia seguinte.

Os desdobramentos desta dinâmica foram apresentados nesta terça-feira (4), durante coletiva do Ministério da Justiça e Segurança Pública, a respeito da Operação Lívia. A investigação, coordenada pela Delegacia Especializada de Proteção à Criança e ao Adolescente de Mato Grosso do Sul, revelou um cenário onde a violência era tratada como entretenimento coletivo. Imagens e conversas analisadas indicaram que os participantes incentivavam a continuidade das ações, com pedidos para posicionamento de câmeras, configurando um “verdadeiro espetáculo de horrores”. A transmissão em questão durou aproximadamente 45 a 50 minutos e foi acompanhada integralmente pelos integrantes da organização, que monitoravam cada desafio imposto à vítima.

Organização e Alcance Nacional

As autoridades afastaram a hipótese de se tratar de um grupo ocasional, evidenciando um planejamento e uma estrutura organizada. O material apreendido aponta para divisão de funções, documentos internos e um recrutamento constante de novos participantes. A investigação revelou a atuação simultânea em diferentes plataformas: o Telegram era utilizado para comunicação, recrutamento e divulgação dos “eventos”, enquanto o Discord servia como palco para as transmissões em tempo real.

A morte da adolescente em Naviraí foi o ponto de partida para uma investigação que desvendou uma organização criminosa de atuação nacional. O grupo especializava-se em identificar adolescentes em situação de vulnerabilidade emocional, submetendo-os a um processo contínuo de manipulação psicológica. Os integrantes conquistavam a confiança das vítimas, promoviam isolamento, humilhações e desafios de violência crescente, ampliando gradualmente o controle exercido sobre elas. A investigação já identificou outra vítima em outro estado e aponta indícios da existência de outros adolescentes submetidos ao mesmo esquema.

Prevenção e Fiscalização de Plataformas

Durante a coletiva, foi informado que a Operação Lívia conseguiu interromper um novo episódio que já estava sendo planejado. O monitoramento de conversas revelou o agendamento de outro “evento”, confirmado pela confissão de um adolescente investigado no Rio de Janeiro. A partir desta informação, a Polícia Civil iniciou a identificação de possíveis vítimas para notificar seus responsáveis. Além da responsabilização criminal dos envolvidos, o Ministério da Justiça notificará o Discord e o Telegram para solicitar a suspensão das contas e servidores utilizados pela organização. Será encaminhado à Autoridade Nacional de Proteção de Dados (ANPD) um pedido para apurar possíveis violações ao Estatuto da Criança e ao Adolescente Digital e ao Marco Civil da Internet, com indícios de falhas em mecanismos de verificação de idade e moderação de conteúdo.

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