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Pantanal Sul-Mato-Grossense: A Partida de Seu Vicente e o Eco de uma Cultura Guató que Resiste

Um Legado à Margem do Rio São Lourenço

Vicente Manoel da Silva, figura emblemática conhecida como Seu Vicente, faleceu aos 81 anos de idade. Residia em uma localidade isolada às margens do Rio São Lourenço, na divisa entre Mato Grosso do Sul e Mato Grosso. O falecimento ocorreu em sua residência, com indícios preliminares apontando para causas naturais. A atuação dos bombeiros da base avançada da Barra do São Lourenço foi acionada para atender à ocorrência.

Guardião da Língua e Costumes Guató

Seu Vicente era indígena Guató, reconhecido como um dos últimos representantes de seu povo a dominar a língua materna. Por décadas, viveu no Porto Caracará, uma área remota do Pantanal, acessível apenas por barco após uma jornada de mais de seis horas a partir de Corumbá. A ausência de vias terrestres próximas aprofundava o isolamento, mas não o distanciava de um modo de vida profundamente enraizado nas tradições ancestrais.

A Vida em Harmonia com o Pantanal

Seu modo de vida espelhava o aprendizado com seus antepassados. Dedicava-se à pesca nos corixos, navegava pelos rios em canoas construídas a partir de troncos únicos e utilizava técnicas tradicionais de pesca com remo, zinga, arpão, vara de pesca e zagaia. Sua conexão com a cultura Guató se manifestava também através da habilidade em tocar instrumentos como o ganzá e a viola de cocho.

Raízes e a Solidão na Terra Ancestral

Nascido em 30 de maio de 1945, Seu Vicente era filho de pais Guató e ocupava o mesmo território que abrigou gerações de sua família. Compartilhava sua residência com a mãe, dois irmãos e dois tios. Após o falecimento de seus parentes, permaneceu sozinho em sua terra natal. A mãe, Júlia, e o tio José foram sepultados em uma área próxima à residência, considerada sagrada pela família.

O Vínculo com o Mundo Exterior e a Preservação

Nos últimos anos, Seu Vicente manteve contato frequente com moradores da Barra do São Lourenço, brigadistas e funcionários do Parque Nacional do Pantanal Matogrossense. Uma de suas canoas tradicionais, feita de ximbuva, foi doada ao Memorial do Homem Pantaneiro, tornando-se um registro tangível da presença do povo canoeiro e sua relação intrínseca com a conservação do território. A equipe do Instituto Homem Pantaneiro (IHP) realizou uma visita à sua residência em maio deste ano, durante trabalhos de acompanhamento socioambiental na Serra do Amolar, instituição que também apoiou a aquisição de sua rabeta e a instalação de energia solar e geladeira em sua casa.

O Futuro da Cultura Guató

A Secretaria de Saúde Indígena (Sesai) previu o envio de uma urna funerária para a região. O falecimento de Seu Vicente levanta questionamentos sobre o futuro da preservação da língua e dos costumes do povo Guató. Sua partida representa a perda de um elo vivo com um rico patrimônio cultural, cuja continuidade depende de esforços contínuos de documentação, valorização e transmissão para as novas gerações, especialmente em um contexto de isolamento e escassez de falantes nativos.

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