- O tradicional Autocine da UFMS foi entregue após 37 anos, mas sem o formato original de exibição de filmes com veículos.
- A estrutura integra um novo Centro de Convivência e Empreendedorismo Estudantil, que recebeu aproximadamente R$ 6 milhões em investimentos federais.
- A programação do espaço ainda está em fase de construção, dependendo de um edital para propostas da comunidade acadêmica e de parcerias para definir as atividades.
Após quase quatro décadas de inatividade, o emblemático Autocine da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS), um ícone de Campo Grande, foi oficialmente reaberto em cerimônia que contou com a presença do ministro da Educação, Leonardo Barchini. Contudo, a reinauguração de um dos espaços mais simbólicos da capital sul-mato-grossense traz consigo uma nova identidade: o local não voltará a funcionar no modelo drive-in original e, em um primeiro momento, carece de uma programação de exibição de filmes já definida.
Este cenário convida à reflexão: o que significa resgatar um patrimônio histórico ao custo de redefinir sua essência? E quais os desafios em reintroduzir um espaço com tanto peso cultural, agora com uma vocação ampliada e ainda em construção, na dinâmica social de Mato Grosso do Sul?
A Reconfiguração de um Símbolo: Entre a Nostalgia e a Inovação
A revitalização transformou o antigo autocine em parte integrante do novo Centro de Convivência e Empreendedorismo Estudantil da UFMS. A iniciativa, que representa um investimento federal de aproximadamente R$ 6 milhões, visa a criação de um complexo multifuncional que integra áreas voltadas para a convivência, inovação, cultura e empreendedorismo, complementadas por uma cafeteria e uma livraria anexas.
A reitora da UFMS, Camilla Ítavo, detalhou a reconfiguração do espaço: o modelo original com veículos, característico das décadas de 1970 e 1980, foi abandonado em favor de uma proposta mais inclusiva e sustentável. A mudança busca democratizar o acesso, permitindo que o público participe sem a necessidade de um carro. A reformulação levou em conta experiências passadas, onde a ausência de um veículo limitava a participação de parte da população, que muitas vezes ficava à margem das sessões. Inspirada em modelos adotados em outras capitais, a nova concepção permite que os frequentadores tragam suas próprias cadeiras, promovendo maior acessibilidade. A universidade planeja, inclusive, fornecer cadeiras para utilização no local, além de autorizar que os visitantes levem as suas, reforçando a ideia de um ambiente flexível e acolhedor.
Essa alteração, fundamental para a nova gestão do espaço, levanta um questionamento pertinente: ao afastar-se do modelo que o consagrou, o Autocine perde parte de sua identidade histórica ou ganha uma relevância contemporânea ainda maior, adaptando-se às necessidades e valores atuais da sociedade, como inclusão e sustentabilidade? É um dilema que a comunidade local certamente irá ponderar ao longo do tempo.
Um Legado Histórico Repensado e o Volume do Investimento Federal
O Autocine, fundado em 1972, marcou a paisagem cultural de Campo Grande até 1989, sendo um importante ponto de lazer. Sua estrutura original contemplava vagas para carros, arquibancadas para pedestres, lanchonete, sala de projeção e um sistema de som adaptado. Embora inativo por mais de três décadas, o local vivenciou um breve retorno em 2020, adaptando-se ao formato drive-in durante a pandemia de Covid-19, um vislumbre da nostalgia que ainda ecoa na memória coletiva.
Com a revitalização concluída, o autocine transcende sua função original, tornando-se um componente vital de um complexo de convivência universitária. Este novo centro, com mais de 12 mil metros quadrados de área total e 2,1 mil metros quadrados de área construída em dois pavimentos, abrigará coworkings, escritórios, cozinha experimental, refeitório, lojas, espaços para eventos, palco, camarim e bilheteria, consolidando-se como um verdadeiro hub multiuso.
O ministro da Educação, Leonardo Barchini, ressaltou a importância da revitalização de estruturas subutilizadas, alinhando-a à política de retomada de investimentos nas universidades federais. A recuperação de espaços que se encontravam desativados, segundo o ministro, representa um esforço para reintegrá-los ao uso público. A iniciativa não apenas aprimora a formação acadêmica, mas também fortalece o elo entre a universidade e a sociedade, oferecendo mais do que o ensino formal. Para Barchini, tais projetos enriquecem a formação estudantil e proporcionam à comunidade uma gama de oportunidades em empreendedorismo, cultura, artes e esportes, refletindo a essência da missão universitária. O montante total de investimentos federais na UFMS atinge cerca de R$ 35 milhões, distribuídos em seus dez campi, sendo aproximadamente R$ 6 milhões dedicados ao recém-inaugurado Centro de Convivência e Empreendedorismo.
Essa expansão infraestrutural é vista como crucial para a permanência dos estudantes no ensino superior, indo além da oferta de bons cursos e instalações acadêmicas para criar um ambiente atrativo que favoreça uma formação mais integral. No entanto, o significativo investimento público levanta a questão de como a universidade garantirá que o retorno social e cultural seja equitativo e acessível, realmente transcendendo os muros acadêmicos e impactando o cotidiano de Campo Grande e do estado.
A Construção Colaborativa da Programação e os Desafios Futuros
Apesar da solenidade de entrega, a programação de eventos e sessões para o autocine ainda está em fase de construção, sem datas definidas. A pró-reitora de Extensão, Cultura e Esporte da UFMS, Lia Brambilla, esclareceu que um edital iminente é o passo inicial para a estruturação das equipes e projetos que animarão o novo espaço. Este edital prevê premiações para instituições parceiras, além de fomentar atividades que buscam conferir ao local uma identidade cultural própria, com a ‘cara de Campo Grande’.
A definição da agenda cultural e empreendedora dependerá diretamente das propostas submetidas por estudantes, professores, pesquisadores e outros interessados. A visão é que o complexo seja progressivamente integrado à comunidade universitária e à população, através de uma programação colaborativa, moldada por parcerias e propostas diversas. A universidade busca, assim, estimular atividades ligadas à inovação, cultura e empreendedorismo, com ideias que incluem concursos gastronômicos, participação de chefs convidados, residências culinárias e formatos inspirados em maratonas de inovação e hackathons.
Embora uma agenda de exibições no telão ainda não esteja definida, algumas atividades iniciais já estão em planejamento para o espaço. Eventos esportivos já estão agendados para os próximos dias, e parcerias para exibições de produções do curso de Audiovisual estão sendo firmadas, sinalizando o retorno da UFMS ao uso ativo do local. A proposta do novo Autocine vai além da tela, buscando consolidar um espaço de integração entre cultura, esporte, inovação e convivência, um hub de experiências diversas. A meta é criar um ambiente de inclusão, que valorize a diversidade cultural e as múltiplas expressões da sociedade, assegurando que todos os segmentos encontrem seu lugar e se sintam representados.
A construção dessa nova identidade para o Autocine da UFMS, tão enraizado na memória afetiva da cidade, será um processo contínuo. O verdadeiro desafio reside em como a universidade conseguirá conciliar a nostalgia de um passado icônico com a projeção de um futuro inclusivo e inovador, garantindo que o espaço se torne, de fato, um ponto de convergência e efervescência cultural para toda a sociedade sul-mato-grossense. Será que a aposta na programação colaborativa será suficiente para gerar o engajamento e apropriação esperados, ou o vazio inicial deixará um vácuo de oportunidades a serem preenchidas?

