Violência Silenciosa: Mortes de Mulheres em Campo Grande Acendem Alerta e Geram Debate
- Três mulheres — Ludmila, Ely e Fabiola — faleceram em Campo Grande em circunstâncias que levantam dúvidas sobre suicídio e violência.
- Os casos acendem um debate sobre como a violência emocional e psicológica, muitas vezes invisível, pode contribuir para desfechos trágicos.
- Especialistas e familiares pedem uma análise mais profunda das mortes, considerando o contexto de gênero e históricos de abusos.
Campo Grande viu, em poucos meses, a morte de três mulheres em situações que chocaram e provocaram questionamentos. Ludmila Pedro de Lima, 25 anos; Fabiola Marcotti, 51; e Ely da Silva Quevedo, 53 anos. Cada história, um mistério. Todas, um ponto em comum: o debate sobre a violência silenciosa.
Morreram este ano, muitas vezes tidas como suicídio, mas deixaram famílias em busca de respostas. O que elas revelam vai muito além dos inquéritos policiais: até que ponto a violência, mesmo sem agressão direta comprovada, pode levar a uma morte?
As investigações seguem caminhos distintos. As conclusões são diferentes. Contudo, a urgência de investigar mortes de mulheres sob uma perspectiva de gênero une esses casos. O feminicídio direto é claro. Mas e quando a morte chega após meses ou anos de sofrimento emocional, humilhações, isolamento, controle ou perda da esperança?
O Debate da Violência Silenciosa
A ex-ministra das Mulheres, Cida Gonçalves, aponta que a sociedade foca na etapa final da violência. O processo termina no feminicídio, mas começa muito antes. Muitas vezes, a agressão física não é o primeiro sinal. A violência surge de forma silenciosa. Começa com proibições, isolamento, levando a violências cotidianas, xingamentos, humilhação e perda da autoestima. O Brasil ainda luta para reconhecer formas de violência que não deixam marcas evidentes. O silêncio, o isolamento, tudo isso é violência, muitas vezes não reconhecida nem pela própria vítima.
Caso Ludmila: Dúvidas e Família Pede Reavaliação
Ludmila Pedro de Lima, 25 anos, morreu em março na casa do namorado, no Bairro Paulo Coelho Machado. A jovem sofreu convulsões e foi levada em estado grave para a Santa Casa, falecendo horas depois.
O namorado relatou uma discussão por ciúmes à polícia. Pessoas próximas, porém, questionam essa versão. Amigos informaram que Ludmila não mostrava intenção de tirar a própria vida. Eles relataram um histórico conturbado no relacionamento. Ludmila chegou a registrar boletim de ocorrência e tinha medida protetiva contra o rapaz, que já havia sido preso por violência contra ela. Ele era descrito como muito agressivo.
A Delegacia Especializada de Atendimento à Mulher (DEAM) informou que não encontrou indícios técnicos ou periciais para sustentar a hipótese de feminicídio. A investigação foi conduzida sob perspectiva de gênero. A família, contudo, não se deu por satisfeita. O advogado Jossandro Oliveira confirmou que os familiares buscam o Ministério Público de Mato Grosso do Sul (MPMS) para pedir uma reavaliação do caso.
A psicóloga Suellen Santos, que atuou no Centro Especializado de Atendimento à Mulher em Situação de Violência Doméstica e Sexual, destaca um nexo causal entre violência doméstica e sexual e o adoecimento mental. A violência é um fator de risco, abrindo questões de trauma, especialmente quando recorrente. Mulheres submetidas a ciclos de violência podem desenvolver depressão, ansiedade, estresse pós-traumático e pensamentos suicidas.
Caso Ely: A Tragédia na BR-163
Pouco mais de um mês após a morte de Ludmila, outra história abalou Campo Grande. Ely da Silva Quevedo, 53 anos, arquiteta, atleta, vivia uma fase de reconstrução. Ela compartilhava nas redes sociais treinos, encontros com amigos, corridas e mensagens de amor-próprio e recomeços. Uma de suas publicações dizia: ‘Se permita, se ame, se faça feliz’. Outra aconselhava a nunca priorizar ‘uma relação ou uma pessoa que te machuque e faça você duvidar de si’. Horas antes de falecer, sua última postagem foi: ‘Segundamos. Senhor, a sua guerreira já está de pé.’
Na manhã de 13 de abril, Ely estava em uma caminhonete conduzida por seu então marido, de quem estava em processo de separação, na BR-163. Equipes de resgate tentaram reanimá-la, mas ela morreu no local. Familiares e amigos lotaram o velório. A irmã, Elke Sinara, expressou a dor da família: ‘Está doendo tanto. Minha irmã amava viver.’
A Polícia Civil investigou o caso pela 1ª DEAM com perspectiva de gênero. A principal versão apontava uma discussão entre Ely e o então marido. A polícia buscou imagens, ouviu testemunhas e analisou laudos. Não foram encontrados indícios de luta, lesões defensivas ou intervenção física do motorista, nem registros oficiais de violência doméstica ou medidas protetivas envolvendo o casal.
Caso Fabiola: Feminicídio Ainda em Aberto
Se os casos de Ludmila e Ely tiveram a hipótese de feminicídio descartada ou cercada de dúvidas, a situação da fisioterapeuta Fabiola Marcotti segue no caminho oposto. Aos 51 anos, ela foi encontrada morta com um tiro na cabeça na chácara onde morava com o marido, o cardiologista João Jazbik Neto, 78 anos, na região da Chácara dos Poderes.
Duas versões conflitantes surgiram. O médico relatou à polícia ter encontrado a esposa caída, sugerindo suicídio. A família, em nota pública, classificou a tese de suicídio como uma ‘fantasia arquitetada’ e afirmou que Fabiola foi vítima de um ‘brutal feminicídio’.
A investigação da Polícia Civil, conduzida pela DEAM, encontrou inconsistências nos depoimentos e divergências entre o ferimento da vítima e a versão inicial. Indícios de fraude processual também foram identificados, como a remoção de um armário com armas e munições da casa principal após a morte. O médico, o caseiro e um ex-funcionário foram autuados em flagrante por fraude processual. Armas de fogo foram apreendidas na propriedade.
No caso de Fabiola, diferentemente dos outros, a hipótese de feminicídio permanece aberta.
Especialistas Alertam: Violência que Não Deixa Marcas
Para especialistas, a importância dessas histórias transcende o resultado das investigações. Elas nos obrigam a fazer perguntas desconfortáveis. Cida Gonçalves enfatiza a dificuldade do país em reconhecer formas de violência que não deixam marcas imediatas. Para a maioria, violência é apenas física ou feminicídio direto. O silêncio, o isolamento, a humilhação são tipos de violência.
Em muitos casos, a própria vítima não reconhece que está sendo violentada. Não percebe que xingamentos ou controle são formas de abuso. A psicóloga Suellen Santos explica que vergonha, culpa e humilhação levam muitas a permanecerem em relações abusivas. Elas são desacreditadas, suas dores invalidadas, enfrentando tudo sozinhas. A perda gradual da identidade, da perspectiva de futuro, dos sonhos e da esperança é um fenômeno comum, levando a ideações suicidas.
Cida Gonçalves aponta uma transformação da violência. O cárcere privado e o estupro coletivo aumentaram. A forma como as mulheres morrem hoje é diferente, e a violência se reconstrói para calar ainda mais as mulheres. O sofrimento profundo raramente aparece nas estatísticas, pois a destruição lenta da autoestima e da autonomia não é contabilizada. Surge então a questão: quando uma mulher morre por suas próprias mãos, é possível separar completamente a morte da história de violência que a precedeu?
Sinais de Alerta e a Urgência de um Novo Olhar
Cida Gonçalves ressalta que o ciúme foi romantizado, e comportamentos controladores são vistos como prova de amor. Isso, contudo, já é o início da violência. A solidão subsequente pode levar à depressão e, em casos extremos, ao suicídio.
Suellen Santos alerta para os sinais. Frases como ‘minha vida não faz mais sentido’, ‘eu queria sumir’ ou ‘não vejo mais saída’ são pedidos de ajuda que não devem ser ignorados. A psicóloga reforça que o suicídio raramente acontece de repente. A responsabilidade de perceber esses sinais não pode recair apenas sobre a vítima. Amigos, familiares, colegas e vizinhos são parte da rede de apoio essencial para interromper ciclos de violência e sofrimento. É preciso mandar mensagem, chamar para um café, perguntar se está tudo bem. O afastamento pode ser um sinal de problema na relação da pessoa, não na amizade.
A discussão proposta pelos especialistas não visa transformar suicídios em feminicídios automaticamente, nem substituir o trabalho das autoridades. A questão é a profundidade com que o sofrimento dessas mulheres é observado. É questionar se a violência psicológica, emocional, sexual, patrimonial e o isolamento social recebem a mesma atenção da agressão física. É perguntar quantas mulheres adoecem e são silenciadas antes que a violência seja reconhecida.
Se a violência pode matar com tiros, facas ou espancamentos, até que ponto ela também mata através do isolamento, da humilhação, do controle e da lenta destruição da esperança?

